terça-feira, 23 de outubro de 2007

Gustavo Krieger discute o jornalismo e a política no Brasil

O cenário político nacional e a sua cobertura pela imprensa foram os focos principais da palestra de Gustavo Krieger, na noite de hoje. O repórter especial de política do Correio Braziliense discutiu, a partir de reportagens e das perguntas do público, desde a relação de confiança com as fontes até a responsabilidade na publicação de uma matéria de denúncia.

Krieger considera o uso de fontes complicado no jornalismo político, já que a grande maioria delas são os próprios políticos. “A verdade é que político mente, ele mente sempre que a sua sobrevivência política depender disso, e mais uma coisa: eles são bons nisso”, enfatiza, ressaltando o perigo de se ter como matéria-prima uma informação que pode ser falsa.

O cuidado deve ser tomado, principalmente, com as matérias de denúncia. “Quem sabe sobre corrupção é o corrupto. É muito difícil receber uma matéria pura, sem interesse”, lembra o jornalista, que fez as primeiras matérias de corrupção do governo Collor e denunciou, na Revista Época, o envolvimento de Waldomiro Diniz em corrupção. Para ele, o jornalista deve sempre desconfiar se a denúncia não está sendo feita para esconder algo pior, e aconselha: “Para fugir destas fontes precisamos ter muita informação, para discernir quem mente ou não, para não virar leiloeiro de político. Quanto mais fontes, menos você precisa de cada uma delas”.

No caso Waldomiro Diniz, surgiu grande especulação sobre quem teria feito a denúncia ao repórter. “Ela chegou num envelope”, conta Krieger. Em seguida, deixa transparecer as dúvidas de um jornalista antes de publicar uma matéria de denúncia: “Você sabe que vai destruir a vida do cara, que o filho dele vai ser zoado na escola. Eu era amigo pessoal do Waldmiro; existencialmente, este foi o pior momento da minha vida”.

Além do lado pessoal do jornalista, outros fatores influem na publicação, ou não, deste tipo de matéria. “Às vezes o sujeito é um bandido, mas será que ele fez o que estamos acusando?”, questiona. Para o repórter, a reportagem deve ser sólida e baseada em provas: “Sem provas, ninguém escreve. Todo mundo sabia do mensalão, mas ninguém podia provar”.

E sobre as denúncias censuradas? “Quando isto acontece, só tem um jeito de lidar: ou aceita, ou não. Eu saí do jornal. Tem mais de um patrão no mundo”, explica Krieger, que em doze anos trocou nove vezes de emprego – em todos os casos foi ele quem se demitiu.

O jornalista também escreve para a revista Rolling Stone. “A diferença dos ‘jornais de gravata’ para a Rolling Stone é que ela é mais iconoclasta e contestatória. A abordagem é outra, mais liberdade de texto”. E finaliza: “escrever para a revista é um tesão. Minha profissão é jornalista, meu hobbie é ser repórter da Rolling Stone.”

Voltando ao assunto política, ele falasobre a criação da Empresa Brasil de Comunicação. “A TV Pública pode ser um excelente instrumento de cidadania ou se tornar um péssimo instrumento de propaganda”, finaliza com a propriedade de quem já trabalhou seis “longos e torturantes meses” na Radiobrás.

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